Vamos tornar-nos mais civilizados?

sábado, 19 de setembro de 2009

O lento regresso à anormalidade da vida quotidiana!

Aqueles que aqui costumam vir seguramente terão dado conta de uma súbita paragem na produção de fino recorte literário (hics!) que nestas páginas eram dadas à estampa (Hics!).
Tal interrupção deve-se nem mais nem menos que há morte de alguém de família: o meu cão Laro. O decano da cãozoada cá de casa ia já a caminho dos quinze anos, o que é raro num Castro Laboreiro. Mas, não obstante essa idade, revelava uma jovialidade e uma compreensão do que à sua volta se passava que era invulgar. Adorava gatos, especialmente pequeninos. Perseguia-os até os encurralar e depois cheirava-os e lambia-os, de tal forma que os gatos, por vezes, até iam dormir ao pé dele. Depois, era aquela marca de velho cujas rotinas não podem ser quebradas e cada acto, cada tarefa eram como que a celebração de um ritual. Mais minuto, menos minuto, às dez para as oito a comida teria de estar na malga ou ninguém o calaria. Ainda que não estivesse a ocupar o sítio onde habitualmente gostava de estar sentado, nada nem ninguém podia ocupar aquele lugar, sob pena de o ouvir ladrar sem parar. Quando o carro entrava pelo quintal, aproveitava a abertura dos portões para ir até à mata comer umas ervas ou somente "ler o jornal". Se se atrasava e ao regressar encontrava os portões já fechados, ali ficava à espera que eu os abrisse e invariavelmente agradecia-me com uma marrada nos joelhos, um leve abanar da cauda e uma expressão que diria que estava a sorrir. Quando lhe dava qualquer coisa fora de horas que fosse do seu agrado, abanava a cauda e ficava com a expressão de quem está a sorrir. Sinto falta de tudo isso, especialmente do sorriso do Laro. Não fosse ter morrido com a cabeça nos meus braços, eu diria que morreu a sorrir.
É por isto que não tenho escrito nada para este blog, porque há uma parte de mim que é somente um buraco, um vazio, que só é colmatado por medicação e enquanto os seus efeitos duram. Agora há que reiniciar a vida, mas já sem este meu amigo que conferia algum sentido à minha existência.

8 comentários:

MONKO disse...

EH!PAH?
BEM ESCRITO.PALAVRA QUE ME EMOCIONASTE.
AGORA DEVIDO AO SITIO EM QUE VIVO
O ULTIMO BICHO QUE TIVE FOI O CIPRIANO UM GATO VIRA LATA COM UM OLHO AZUL E OUTRO VERDE,APANHADO NA GAFANHA DA NAZARE EM AVEIRO.
ATE AOS TRINTA ANOS EM CASA DE MEUS PAIS (O MEU PAI CAÇAVA)SEMPRE HOUVE CÃES.
TERRIERS,PARA CAÇA DE PELO OU OS BONS PERDIGUEIROS PORTUGUESES.
FOI DURO PARA TI E PARA OS TEUS.
E A VIDA.QUANDO SE PERDE UM AMIGO VAI-SE UM POUCO DE NOS.
UM ABRAÇO.

e-ko disse...

eu só ainda tenho um, mas ando a magicar uma forma de ir para uma parvónia e comprar uma casota cum quintal com o dinheiro da venda do meu apartamento, para arranjar mais um e um gatito... nem sei como seria se o meu desaparecesse!...

quando vou na rua, só as cabecinhas e olhitos dos cães que passam despertam algum interesse em mim... e acabo quase por só falar com pessoas que também têm animais.

Rebel disse...

Prefiro, de longe observar e brincar com cães e gatos que com a esmagadora maioria das pessoas com quem me cruzo!
Quando fizeres isso, eu arranjo-te o gato, caso queiras. É só dizeres!

e-ko disse...

ó páh, inda só vou no início... e isto vai ser complicado. porque a minha vida está muito complicada de há meia dúzia de anos pra cá, cas cumplicações do SNS que me íam destruindo mas que puzeram em pantanas a minha capacidade de organização pessoal.

Rebel disse...

não há pressas, é ao teu ritmo!

Fada do bosque disse...

Nem a brincar Rebel... parece que estamos ambos, com o mesmo sentimento.
No meu blogue Oficina, dediquei ontem aos meus amigos e familia que partiram... que saudades, que vazio.
Quanto mais conheço o Homem, mais gosto dos animais... e vieram todos do abandono, excepto a setter, a Luna...

Fada do bosque disse...

Perdi 5 amores em 2 anos... Apre que é duro!
Os gatos vão-se aguentando...
Rebel, os meus sentimentos. :(

Rebel disse...

Obrigado!