Vamos tornar-nos mais civilizados?

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Eu, o País e o café onde tomo a bica

Todos os dias, aqui por Santa Clara, vou ao café da D. L. e do xôr P., comer uma empada de galinha (a que por economia de esforço chamo galinha) e tomar o meu cafezinho. É um local à primeira vista não muito simpático, sombrio, onde podemos apanhar às mesmas horas as mesmas pessoas, mas onde toda a gente sabe o nome de toda a gente e todos sabem o que cada um faz. Tudo pauta pelo sentido de humor, pela boa-disposição e pelo espírito de entreajuda.

As empadas de galinha que como, são feitas por uma senhora de 86 anos que vive muito perto do café, sendo público que a senhora D. ingere muito do vinho que às empadas se destinaria. De tal modo que as empadas um dia são de um tamanho e no dia seguinte já vêm em versão mini, no outro dia não as há porque a senhora está de cama. A qualidade das empadas é inquestionavelmente muito boa, quando as há...

Há tempos, apresentava eu a minha reclamação pela falta de empadas, quando me contaram o que tinha não havia muito tempo acontecido:
A senhora que faz as empadas vivia muito desafogadamente e nunca deixou de fazer comida para fora, mesmo depois de ter vendido o restaurante que fora seu e que já herdara do pai. Nunca se lhe notou o menor sinal exterior de riqueza (o que pode ser considerado até uma forma de fuga ao fisco), bem como não há notícia de que alguém lhe tenha batido à porta a pedir e saísse de lá de mãos a abanar. Não há muito tempo, chegou ao café e pediu para que na calculadora dividissem uma cifra bastante grande por três. Perguntou qual era o quociente daquilo e saca de três cheques e pede à dona do café para colocar aquela cifra nos três cheques e colocar em cada um deles o nome de cada um dos filhos. A dona do café, mulher muito inteligente e muito cautelosa, disse-lhe então que o faria, mas que ela deveria colocar uma cifra mais pequena nos cheques, de forma a ficar com algum dinheiro para si, não se fosse dar o caso de vir a precisar dele. A senhora reiterou a intenção de ser aquele o dinheiro que daria a cada filho e ela lá se arranjaria com o que ganhava e com mais a sua reforma.
Assim foi.
Como vive numa casa alugada, tempos depois, constatou que o custo de vida era uma entidade viva e que crescia constantemente e começou a faltar o dinheiro.
Resultado da reunião no café: o senhorio foi à segurança social pedir o complemento de reforma da senhora, e com o complemento, mais a reforma, a senhora paga a renda, água, luz e telefone. Depois, a venda da comida que faz para fora dá-lhe para as despesas consigo própria que são genuinamente franciscanas e resolveu-se o problema.
Moral da história: Por qualquer atavismo humano os filhos de gente boa, nascem usualmente cabrões (esta é já uma parte da história que não desenvolvi aqui). Mas, ainda assim, a boa vizinhança pode aumentar a níveis fabulosos a qualidade de vida das pessoas. Não se aconselha por isso que alguém de bem vá viver para Belém ou S. Bento!

5 comentários:

José Oliveira disse...

Finalmente um post que me impele a comentar. :)
Um abraço!

Rebel disse...

Zé tu só gostaste disto porque mete matemática!

Rebel disse...

Um abraço, Zé! Um Xi- coração ao Zé Manel e os meus mais respeitosos cumprimentos à Marta!

Eric Blair disse...

que não te faltem as empadas, nem o nívea à senhora.

MONKO disse...

BELA HISTORIA.CONHEÇO DE PERTO UMA SEMELHANTE.
POR AQUI COMO SABES CADA UM TRATA DA SUA VIDA E PODEM VER ALGUEM A PATINAR QUE NÃO MEXEM UM DEDO.
O EGOISMO É A PRINCIPAL FACETA DAS
GRANDES CIODADES.
UM ABRAÇO.